Recuos e histerias


alt

*Por Paulo Solmucci

O Brasil continuará avançando. Mas, será do seu jeito de sempre, com dois passos à frente, e um para trás? Assim ocorreu com a crise de 1954, em que o presidente Getúlio Vargas se matou. Veio depois o governo ultrademocrático e desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Também foi assim com o impeachment de Fernando Collor. Parecia o fim do mundo. Crises para todos os gostos: política, ética, moral, econômica.

Depois, no entanto, veio a conquista da credibilidade internacional. Ela decorreu da moeda estável, da reorganização do sistema financeiro, da Lei de Responsabilidade Fiscal, das privatizações de siderúrgicas, mineradoras e bancos estaduais, do regime de meta de inflação, das agências reguladoras.

A gente pode ficar aqui apontando um e outro momento da história em que, parecendo que o tempo havia fechado para todo o sempre, sobrevinha uma tempestade daquelas e, logo depois, o céu se abria, com os bons ventos levando à marcha habitual: mais dois passos adiante.

Temos de continuar a caminhada. Porém, de um jeito diferente. Um passo adiante, e nenhum para trás. O que nos atrapalha é querer descontar, com duas passadas de uma só vez, o tempo perdido. E nos atrapalha mais ainda esse um passo atrás, desfazendo-se o que foi feito.

Houve recentemente outro impeachment. O vice assumiu o comando. E, daí, dois passos em um mandato-tampão bem curto, inclusive porque o ano de 2018 seria o de eleições. Sobreveio a grande onda de reformas. Algumas vingaram: teto de gastos, reforma do ensino médio, terceirização. E, de quebra, a medida provisória de liberação do saque das contas inativas do FGTS. Outras estavam a caminho, sendo a principal delas, para o momento, a modernização de alguns pontos da legislação trabalhista.

Já se sabia que a reforma da previdência seria uma parada duríssima. É óbvio que precisa ser feita com urgência, sob pena de que as agudas dificuldades de hoje acabem logo se tornando gravíssimas.

Eis que voltamos, neste instante, ao vício do velho passo atrás. Regredimos. E ficamos todos meio abestalhados. Ora, ora: vamos sair da paralisia! O país precisa entrar em uma profunda reflexão, buscando uma lúcida retomada do caminho. Mas, tem de ser de outro jeito. Um passo de cada de cada vez, bem calculado, firme, resoluto. E sem recuo.

O pessoal fica assustado com o vandalismo, a violência, a baderna e as cenas de barbárie dos anarquistas que, no dia 24 de maio, tacaram fogo no Ministério da Agricultura e depredaram vários prédios vizinhos ao Palácio do Planalto e ao Congresso Nacional. Quando voltarmos a caminhar, essa turma se acalma. Fizeram isso, em 2013, a pretexto do movimento pela “tarifa zero” e, depois, contra os gastos nas copas da Fifa, começando pela Copa das Confederações.

Os anarquistas vieram ao mundo para apagar incêndio com gasolina. Esses rapazes mimados querem o reconhecimento pela via da transgressão. Se há uma dura resposta aos seus gestos de extrema agressividade, eles se escondem debaixo da cama. Quando as coisas se normalizam, desinflam-se suas imaturas pulsões histéricas e destrutivas.

O Brasil vai acertar o passo. Mas, temos de seguir adiante, bem de acordo com a música de Almir Sater e Renato Teixeira: “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias pela longa estrada. Eu vou. Estrada eu sou”.

*Artigo publicado originalmente pela revista Destrinchando