Belém 402 anos: da música à gastronomia, a cultura da capital paraense conquista destaque internacional

Tema de novela, o ritmo mais marcante do Pará alcança novos públicos. Dona Onete e Pinduca chegam ao reconhecimento em diversos locais do mundo, assim como a culinária regional, que tornou a capital cidade internacional da gastronomia

Com 402 anos, a cultura da capital paraense está na vitrine do mundo. A música regional, a gastronomia amazônica, até o sotaque papa-chibé se popularizou pelos quatro cantos do Brasil. Tema de novela no horário nobre da TV Globo, o país conheceu Belém e a cultura do estado, que já extrapolavam as fronteiras do norte e virou hit.

Belem 402 anos: selo (Foto: Arte: G1 e TV Liberal)

Belém 402 anos é uma série de duas reportagens produzidas pelo G1 que mostram os desafios enfrentados pela capital paraense, como o avanço da violência, os problemas com saneamento básico, educação e moradia, bem como o avanço cultural e gastronômico atingido pela cidade no país e no mundo.

A vez da realeza do carimbó

Com mais de 40 anos de carreira, pela primeira vez Pinduca foi indicado ao Grammy Latino de música.

Seu 36º disco, intitulado "No Embalo do Pinduca", conquistou a indicação internacional com versões inéditas de hits como Sinhá Pureza, Carimbó do Macaco e a Marcha do Vestibular. Manoel Cordeiro, mestre da lambada, foi o parceiro por trás dos acordes que deram novo som aos sucessos de Pinduca.

Com uma carreira de mais de 40 anos de estrada, Pinduca foi indicado a um dos maiores prêmio da música mundial, o Grammy Latino (Foto: Akira Onuma)

“Fiz o carimbó moderno, pop, porque estávamos em plena revolução da modernização, quando surgiu a guitarra, a bateria, o microfonado... No começo, muita gente criticou, não foi assim bem aceito. Mas hoje caiu no gosto. Até em Marapanim, que é berço do carimbó raiz, já tem conjunto de carimbó moderno”, orgulha-se o artista, aos 80 anos de idade. Ainda que Pinduca não tenha levado o Grammy para casa, para o produtor do disco, o paraense Marcel Arêde, o reconhecimento internacional ao trabalho do “Rei do Carimbó” já é importante e se dá pela ousadia e originalidade do artista.

“O fator mais importante é a genialidade do trabalho dele, principalmente nos anos 70 e 80. Ele foi o primeiro artista que rompeu essa barreira do regional com o pop, sem medo de inventar, de eletrizar o carimbó”, destaca.

Ser escolhido pelo júri do Grammy, para Marcel, potencializa a projeção da cultura do Pará para o mundo. “A música popular do Pará cada vez mais sendo reconhecida dentro e fora do País. Já vínhamos fazendo isso com Gaby, Gang do Eletro, Dona Onete e agora mais este trabalho que emplacou!”, comemora.

Dona Onete: aos 78 anos, a paraense conquista públicos de diversos países com seu carimbó chamegado (Foto: Laís Teixeira/Divulgação)

Outra mestra da música popular paraense também ganhou o mundo. Dona Onete, aos 78 anos, conquistou a Europa com o carimbó chamegado. A turnê de “Banzeiro” circulou pela França, Alemanha, Reino Unido e Holanda e Portugal. Os Estados Unidos também conheceram o batuque irreverente da artista.

“É uma grande felicidade. Assim como a garça e o urubu, o po-po-po tá na mídia”, brinca Dona Onete, que traz nas composições todo o imaginário popular da rotina ribeirinha de Belém do Pará.

O sucesso é tanto que conquistou até mesmo a Bahia. O batuque e a energia do Pará são a aposta de Daniela Mercury para o hit do carnaval 2018. A cantora baiana, um dos maiores talentos do axé nacional, lançou clipe de “Branzeiro”, música de Dona Onete. “Banzeiro faz todo mundo dançar! É irresistível”, diz a artista de Salvador.

Fã declarada da paraense, Daniela destaca a vitalidade da “Rainha do carimbó chamegado”. “Dona Onete sempre foi artista, mas é raro ter essa coragem e energia com quase 80 anos, é muito bom! Ela tem a energia e alegria de uma menina. Ela é muito carismática como cantora e como compositora. A idade também é mais uma originalidade dela”.

“Boto Namorador”foi gravada especialmente para a novela “A Força do Querer”, da autora Glória Perez. O folhetim de horário nobre teve como cenário o Pará, e mostrou ao país os costumes, a dança e o sotaque da região, incorporados por artistas como Isis Valverde, Tonico Ferreira e Zeze Polessa.

Isis Valverde e Marco Pigossi dançam carimbó em cena da novela "A força do querer", da autora Glória Perez (Foto: Reprodução/TV Globo)

Nascida no Acre, Glória diz que escolheu o Pará como tema de sua novela pela sua riqueza cultural. “Este estado tem uma cultura que sempre me fascinou. A novela fez com que o Brasil se apaixonasse pela cultura do Pará. A Lenda do Boto, as frases, as palavras que se usam aqui. Eu mesma já uso ‘pavulagem’ no meu dia a dia, além do ‘égua!’”, contou a escritora durante visita a Belém no Círio de Nazaré.

Música erudita made in Amazônia

Nem só de carimbó e guitarrada vive a música do Pará. A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz (OSTP) foi considerada a melhor orquestra de 2017, de acordo com o balanço dos melhores do ano de uma revista especializada em música clássica. A menção foi pela execução da ópera "Don Giovanni", de Mozart, durante o XVI Festival de Ópera, realizado em setembro na capital paraense.

O crítico Leonardo Marques, autor do balanço nacional, observou que desde que começou a fazer a retrospectiva anual, com a indicação dos melhores do ano, esta foi a primeira vez que uma orquestra superou a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo. A indicação é um feito para a sinfônica.



OSTP é eleita a melhor orquestra do Brasil (Foto: Ascom)

A montagem de Don Giovanni, a grande atração do festival, recebeu ainda destaques de melhor regente com o mineiro Maestro Silvio Viegas; melhor cenário pelo trabalho de Nicolás Boni; melhor direção cênica com a rigorosa mão de Mauro Wrona; e cantores revelação, com destaque para a paraense Kézia Andrade, como Donna Elvira, e o paulistano Anderson Barbosa, o Commendatore.

"A nossa cultura, nossa música é algo que vai além da tradição, somos uma cidade musical. Agora a música erudita, que já é forte em Belém desde o século XIX, vem dando um salto nos últimos anos. A criação da OSTP, por exemplo, foi um divisor de águas e só veio enriquecer esse cenário da nossa cidade. A orquestra, que completou 20 anos, teve um ano de comemoração e reconhecimento a nível nacional, o que não é nada menos que perfeito para este momento", diz o maestro da OSTP, Miguel Campos Neto.

"Para este aniversário de Belém, quero lembrar do que torna a cidade tão diferente. O regionalismo cultural é tão forte que ultrapassa o nível do popular e chega também no nicho da ópera, da música erudita”, diz Campos neto, que destaca que a formação da orquestra tem DNA do Pará. “Nossa orquestra profissional, que é uma das mais raras e está entre as cinco maiores do país, é peculiar por ser composta, em sua grande maioria, por músicos paraenses, o que a torna ainda mais especial devido sua forte ligação com a cidade. Entre os 66 músicos, somente três não são do estado. Esse sabor regional da nossa cultura só vem a enriquecer a expressão artística exercida pela OSTP e público se identifica, admira", orgulha-se o maestro.

Culinária original fez de Belém a cidade criativa da gastronomia internacional (Foto: Cristino Martins/O Liberal)

Gastronomia

Os sabores de Belém também ganharam o mundo. A capital do Pará foi a primeira cidade das Américas a receber o evento internacional Cidades Criativas da Gastronomia, realizado pela Unesco, em novembro do ano passado. Chefs de várias partes do planeta conheceram de perto a variedade de iguarias encontradas somente na Amazônia.

“Temos um tesouro nas mãos e precisamos nos apropriar dele. Nossa cultura alimentar é particular e o mundo deve valorizá-la, para que seja sustentável aos produtores locais, desde os pequenos produtores, até a gastronomia dos chefs paraenses”, frisa o chef Fábio Sicília.

A imersão dos cozinheiros chegou até a ilha do Combu. Lá, eles conheceram o chocolate produzido na região, visitaram tribos indígenas, provaram os sabores do Ver-o-Peso, maior mercado a céu aberto da América Latina, e conheceram desde a gastronomia mais popular da região aos pratos assinados por grandes chefs paraenses. O evento contou ainda com a participação de pesquisadores e cientistas que debateram formas de estimular a gastronomia, considerando seu aspecto histórico, identitário e sustentável.

 

Fonte: G1